Quem ganha e quem perde com a saída da FEDEX das operações domésticas no Brasil?
Artigo escrito por Marco Antonio Oliveira Neves, Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e Treinamento em Logística
O anúncio da FedEx de encerrar suas operações de transporte doméstico no Brasil gerou uma onda de choque pelo setor logístico nacional. A gigante americana, que expandiu sua presença local de forma agressiva anos atrás com a compra do Rapidão Cometa em 2012 e depois com a incorporação mundial da holandesa TNT em 2016 (que havia adquirido o Expresso Mercúrio em 2007 e o Expresso Araçatuba em 2009), decidiu focar exclusivamente em remessas internacionais e em operações de supply chain. Essa retirada não é apenas um movimento corporativo; é uma redistribuição de cartas em um tabuleiro onde centenas de milhões de reais em faturamento estão agora “em jogo”. Vale lembrar que, em 2012, quando o Rapidão Cometa foi adquirido, estimava-se que a empresa faturava entre R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão por ano.
O mercado brasileiro de transporte de carga fracionada é notoriamente complexo, e quem conseguir oferecer visibilidade em tempo real, prazos de entrega competitivos e eficiência de custos para os ex-clientes da FedEx, terá uma vantagem competitiva sem precedentes nos próximos meses.
A fatia de mercado deixada pela FedEx não será absorvida por uma parcela limitada de empresas, mas sim pulverizada entre aqueles que demonstrarem maior agilidade comercial (inclusive preço competitivo) e capacidade de malha para absorver o volume excedente sem perder a qualidade. Muitas empresas poderão usufruir de um aumento de faturamento ao longo dos próximos três meses. Grandes players nacionais como Braspress, Jadlog, Jamef, Patrus e Tragetta (antes Solistica), além de transportadoras de médio porte com forte atuação regional como Termaco, Tecmar, Formato Transportes, Transfarrapos, Modular Cargas, Pacífico Log, Farias Faz, Atual Cargo, Campinense, LDB Cargas, Primeira do Nordeste, Express TCM, Carvalima, Raça Transportes, RPA Transportes, Movvi, Via Pajuçara dentre outras encontram um vácuo imediato de demanda. Também serão beneficiadas as pequenas Transportadoras que vinham operando apenas parte da Região Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Tudo dependerá, principalmente, do equacionamento do binômio preço (e todos os seus componentes como TDE, Gris e Ad-Valorem) versus nível de serviço. Mas também poderá envolver questões como perfil de carga, prazo de pagamento, fator de cubagem, frequência de coletas, responsabilidade pelos seguros das cargas, políticas relacionadas ao desconto por avarias etc.
Transportadoras, até então atuantes exclusivamente na operação intranordeste ou em outras regiões atendidas pela Fedex, também poderão ser estimuladas a abrir filiais na Grande São Paulo, por exemplo, para captar a carga local ou até para receber cargas transferidas de Estados da Região Sul e do interior remoto do Estado de São Paulo.
Pode “sobrar” até para Transportadoras que não atuam na Região Nordeste, como Rodonaves, Expresso São Miguel, Rodoviário Camilo dos Santos, Alfa Transportes, TW Transportes, Brasil Web, Aceville, Minuano etc., que poderão aproveitar o momento para iniciar o atendimento às principais capitais nordestinas. Obviamente que essas empresas também serão beneficiadas em suas próprias áreas de atuação com a saída da Fedex.
A saída de um player de abrangência nacional também abre espaço para soluções mais flexíveis e tecnológicas, as conhecidas logtechs, como Loggi, CargoX, Intelipost e Mandaê. E por que não pensar em NSTech e Mobiis?
Por outro lado, o lado perdedor pesa sobre os ombros dos Embarcadores (Clientes). Para muitas empresas que utilizavam a FedEx, a decisão traz uma “dor de cabeça” logística imediata. A transição forçada exige a busca por novos parceiros, renegociação de tabelas de frete e, muitas vezes, a adaptação a processos operacionais diferentes. A perda de um player global reduz a pressão competitiva, o que pode resultar em aumentos de preços a médio prazo. Encontrar substitutos que mantenham o nível de compliance, capilaridade e tecnologia em todas as regiões do Brasil é um desafio hercúleo. O risco de ruptura na cadeia de suprimentos durante essa fase de transição é real e exige uma gestão de risco impecável.
Também perdem os colaboradores da Fedex, que precisarão se realocar ao longo dos próximos dias. Não será fácil para esses profissionais, que estão se despedindo de uma empresa multinacional, bem estruturada e com um DNA muito forte e peculiar. A readaptação pode ser lenta e dolorosa.
Há também um impacto simbólico negativo: a saída reforça a narrativa do “Custo Brasil”. Se uma das maiores empresas de logística do mundo não conseguiu encontrar rentabilidade sustentável na operação doméstica brasileira, isso acende um sinal amarelo para investidores estrangeiros. A complexidade tributária e a infraestrutura deficitária continuam sendo barreiras que afugentam gigantes e limitam a eficiência do nosso mercado interno.
No entanto, onde há vácuo, há oportunidade. É o momento de as transportadoras brasileiras provarem que conhecem cada buraco das nossas rodovias melhor do que ninguém e que podem oferecer um serviço superior.
Em resumo, a saída da FedEx redesenha o mapa logístico do país. Enquanto os Embarcadores correm para mitigar danos e custos, as transportadoras locais viverão um momento de expansão acelerada. O mercado brasileiro é para fortes, e a redistribuição desse faturamento multimilionário definirá quem serão os novos líderes da logística nacional na próxima década.