• By Marco Antonio Presidente da TigerLog
  • março 9, 2026
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O que está por detrás dos altos índices de turnover e absenteísmo nas operações logísticas?

Artigo escrito por Marco Antonio Oliveira Neves, Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e Treinamento em Logística

O chão de operação logística no Brasil tornou-se uma panela de pressão. Não é mais segredo que Transportadoras e Operadores Logísticos enfrentam uma batalha silenciosa — e caríssima — contra o turnover e o absenteísmo. No entanto, o erro fatal da gestão tem sido tratar esses indicadores como “problemas de RH”, quando, na verdade, eles são sintomas claros de uma falha sistêmica na cultura organizacional, na atuação das lideranças e no desenho das operações.

Enquanto planilhas de KPI focam no custo do frete e na eficiência do picking, ignora-se o fator humano que sustenta essas métricas. O profissional de logística brasileiro, muitas vezes submetido a jornadas exaustivas, pressão por prazos irreais e ambientes de trabalho insalubres e sem perspectivas positivas, sente-se apenas como um número no inventário. O resultado? O colaborador não “falta” ao trabalho; ele se retira de um ambiente onde não enxerga valor ou futuro.

A realidade das nossas Transportadoras revela um abismo de liderança. Coordenadores, Supervisores e Encarregados, muitas vezes promovidos tecnicamente, mas sem preparo humano, gerenciam pelo medo e pela cobrança ríspida. Esse modelo de gestão “comando e controle” é o combustível principal para o absenteísmo. O corpo do trabalhador pode estar presente, mas a mente já está buscando o próximo emprego que ofereça o mínimo de respeito e equilíbrio.

Além disso, a infraestrutura precária e a insegurança jurídica e física nas estradas brasileiras geram um desgaste mental sem precedentes. Para o motorista e o ajudante, a carga horária não termina no relógio de ponto; ela se estende na ansiedade de chegar vivo e com a carga intacta. Quando a empresa não oferece suporte emocional ou programas reais de bem-estar, a única saída que o profissional encontra para preservar sua saúde é a ausência ou a demissão.

Precisamos falar honestamente sobre a “fuga de talentos” no setor. Não estamos perdendo profissionais apenas para a concorrência direta, mas para a economia de plataforma e o empreendedorismo informal. O setor logístico está competindo com alternativas que prometem mais autonomia, mesmo que com menos estabilidade. Se a logística não se tornar um lugar de desenvolvimento e dignidade, o apagão de mão de obra deixará de ser uma ameaça para se tornar o novo normal.

O custo da rotatividade é uma hemorragia financeira invisível. Treinamentos perdidos, processos interrompidos e a queda na qualidade do serviço ao Cliente final corroem a margem de lucro muito mais do que o preço do diesel. Tratar turnover como “característica do setor” é uma confissão de incompetência gerencial. É um escudo para não enfrentar a necessidade urgente de investir em planos de carreira e infraestrutura humana.

A tecnologia, tão celebrada com o WMS, TMS e o rastreamento em tempo real, deve servir também para melhorar a vida de quem opera. De que adianta um armazém inteligente se o clima organizacional é tóxico? A verdadeira disrupção na logística brasileira não virá de um novo software, mas de uma mudança radical na forma como valorizamos o capital humano. O engajamento nasce da percepção de pertencimento, não apenas do depósito do salário no fim do mês.

Se quisermos estancar o turnover e o absenteísmo, precisamos parar de olhar apenas para o retrovisor e encarar o que está à nossa frente: pessoas. O futuro das operações logísticas no Brasil depende da coragem de humanizar o processo. Ou mudamos a cultura de nossas transportadoras e operadores agora, ou continuaremos sendo um setor de passagem, assistindo passivamente à saída dos nossos melhores talentos por uma porta que nunca se fecha.

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