• By Marco Antonio Presidente da TigerLog
  • janeiro 12, 2026
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O importante recado dado pela FEDEX ao encerrar as operações domésticas no Brasil

Artigo escrito por Marco Antonio Oliveira Neves, Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e Treinamento em Logística

O recente anúncio de que a FedEx encerrará suas operações domésticas no Brasil não é apenas uma importante notícia corporativa; é um sintoma alarmante da saúde do nosso setor logístico. Ao focar apenas no mercado internacional e nas operações de supply chain, a gigante americana envia um recado silencioso, mas ensurdecedor: operar o transporte de cargas dentro das nossas fronteiras tornou-se um desafio hercúleo, mesmo para quem tem capital e know-how global.

Este movimento não é isolado. Ele nos faz lembrar de outros ícones, liderados por importantes empresários do setor, que, ao longo dos anos, deixaram o mercado de prestação de serviços logísticos por conta própria, tais como o Expresso Mercúrio, Expresso Araçatuba, Atlas Transportes, Transportadora Americana, Plimor, Expresso Jundiaí e Translovato (ainda operando sob a gestão da BBM Logística),sem contar outras inúmeras transportadoras que quebraram ao longo destes anos. O que essas Transportadoras têm em comum? Todas sentiram o peso de um mercado que pune a eficiência e que consome vorazmente a rentabilidade do negócio. O desaparecimento ou a saída voluntária desses grandes players do transportes de cargas doméstico evidencia que a logística no Brasil deixou de ser uma questão de competência operacional para se tornar uma luta de sobrevivência contra margens asfixiantes.

A raiz desse problema reside em um ecossistema hostil que combina infraestrutura defasada com uma carga tributária labiríntica. O transportador brasileiro lida com o “Custo Brasil” em seu estado mais puro: dificuldades com a mão de obra em todos os níveis hierárquicos, rodovias precárias que elevam o gasto com manutenção e combustível, insegurança pública que exige investimentos pesados em gerenciamento de risco e escoltas, sucessivos descontos por problemas de avarias, furtos e extravios, alongamento dos prazos de pagamento dos fretes, e uma guerra de preços predatória alimentada pelas próprias Transportadoras convencionais e pelos novos entrantes, fortemente apoiados em tecnologia.

Além disso, a ascensão do e-commerce transformou o perfil das entregas. Se por um lado o volume de pacotes aumentou, por outro, a exigência por fretes cada vez mais baratos e prazos de entrega cada vez menores, pulverizaram as margens de lucro. Transportadoras tradicionais, presas a estruturas de custos rígidas e grandes frotas próprias, encontram extrema dificuldade em competir com modelos de “logística asset-light” ou com o fomento de malhas próprias de gigantes do varejo digital. A saída da FedEx é o reconhecimento de que, nesse novo tabuleiro, a especialização internacional e a gestão de cadeias complexas são caminhos mais seguros do que a briga pela última milha na porta do consumidor brasileiro

A saída da FedEx da malha nacional sinaliza que a complexidade logística do país atingiu um ponto de ruptura. A logística é o sistema circulatório da economia. Se as veias continuarem entupidas por burocracia e custos invisíveis, o crescimento do país continuará comprometido.

O recado é claro: o modelo de prestação de serviços em transporte de cargas no Brasil precisa de uma revisão estrutural urgente. Se as condições atuais repelem investimentos de multinacionais e levam ao colapso históricas empresas nacionais, o resultado será um mercado cada vez mais concentrado, com menor concorrência e, inevitavelmente, mais caro e menos eficiente para os Embarcadores e Clientes finais.

A saída estratégica da FedEx não deve ser tratada apenas como um fato isolado de gestão, mas como um convite à reflexão para governo e iniciativa privada. É preciso decidir se o Brasil continuará sendo um “cemitério das transportadoras” ou se haverá coragem para enfrentar os gargalos que impedem o país de ter um mercado logístico saudável, rentável, moderno, e, acima de tudo, competitivo globalmente.

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