A IA pode eliminar a porta de entrada do mercado de trabalho?
A discussão não deve se limitar à pergunta sobre quantos empregos serão substituídos pela inteligência artificial. Um risco menos evidente, mas potencialmente mais estrutural, está na redução das oportunidades destinadas a profissionais em início de carreira.
Durante décadas, atividades como elaboração de relatórios simples, atualização de planilhas, conferência de informações, atendimento inicial, produção de textos básicos, lançamento de dados e acompanhamento de processos funcionaram como uma espécie de escola prática. Embora fossem tarefas operacionais, permitiam que jovens profissionais conhecessem o negócio, desenvolvessem repertório e se preparassem para assumir responsabilidades mais complexas.
Agora, muitas dessas atividades podem ser automatizadas ou realizadas com apoio de inteligência artificial. O problema não está apenas na eliminação da tarefa repetitiva. Está na possibilidade de as empresas eliminarem também a posição pela qual o profissional começaria a construir sua experiência.
A Organização Internacional do Trabalho estima que aproximadamente um em cada quatro empregos no mundo apresenta algum nível de exposição à inteligência artificial generativa. A própria organização pondera, porém, que o resultado mais provável é a transformação das ocupações, e não a substituição integral dos trabalhadores. Funções administrativas e de suporte estão entre as mais expostas.
Essa transformação tende a atingir diretamente cargos de assistente, auxiliar, trainee, estagiário e analista júnior, porque parte relevante de suas atribuições está relacionada à organização de informações, elaboração de documentos, pesquisas iniciais e execução de rotinas padronizadas.
A OCDE também alerta que os jovens podem enfrentar uma concorrência crescente com a IA pelas vagas de entrada. Isso ocorre em um contexto no qual muitos já encontram dificuldades para ingressar no mercado por falta de experiência, criando um paradoxo: as empresas exigem experiência, mas reduzem justamente as oportunidades que permitiriam adquiri-la.
O desaparecimento do primeiro degrau
Toda organização precisa formar profissionais capazes de ocupar posições técnicas, estratégicas e de liderança no futuro. Entretanto, os profissionais mais experientes não surgem prontos no mercado. Eles são desenvolvidos a partir de sucessivas experiências, exposição a problemas, acompanhamento de gestores, erros, correções e aumento gradual de responsabilidade.
Quando a empresa automatiza posições iniciais sem construir uma nova trilha de aprendizagem, pode gerar uma ruptura no seu próprio pipeline de talentos.
No curto prazo, a redução de funções juniores pode parecer eficiente. A empresa diminui custos, acelera entregas e consegue produzir mais com equipes menores. No médio e no longo prazo, porém, pode enfrentar escassez de profissionais com conhecimento prático suficiente para assumir posições plenas, seniores e de liderança.
Esse é o ponto central: a inteligência artificial pode não eliminar apenas determinados empregos, mas comprometer o processo pelo qual os trabalhadores acumulam experiência.
O impacto não será igual para todos
A exposição à IA não significa automaticamente demissão. Em muitas atividades, a tecnologia funciona como instrumento de apoio, elevando produtividade e qualidade. O risco aumenta quando a organização utiliza a automação apenas como mecanismo de redução de quadro, sem redesenhar funções ou investir em qualificação.
Pesquisas recentes indicam que trabalhadores mais qualificados e com maior capacidade de adaptação tendem a obter benefícios mais rapidamente, enquanto profissionais com menor repertório técnico ou pouca autonomia podem enfrentar maiores dificuldades.
Isso pode ampliar uma desigualdade já existente. Profissionais experientes utilizam a IA para acelerar análises, consolidar conhecimentos e melhorar decisões. Já os jovens, que ainda precisam desenvolver esses conhecimentos, podem ser cobrados para entregar resultados mais avançados sem terem percorrido as etapas necessárias de aprendizagem.
Em outras palavras, a IA pode aumentar a produtividade de quem já possui repertório, mas não necessariamente criar sozinha o repertório de quem está começando.
Uma vaga de entrada não pode exigir um profissional pronto
Outra consequência possível é a elevação artificial das exigências para posições juniores. Se a tecnologia passa a executar as tarefas mais básicas, as empresas podem começar a esperar que o profissional recém-formado já saiba interpretar dados, apresentar soluções, utilizar ferramentas de IA, compreender o negócio e tomar decisões.
A vaga continua sendo divulgada como júnior, mas seu escopo passa a se aproximar de uma posição plena.
Esse movimento pode tornar o primeiro emprego ainda mais inacessível. Dados citados pela OCDE mostram que mais de 90% dos empregadores avaliados em determinado levantamento exigiam experiência anterior até mesmo para posições classificadas como de entrada.
A tecnologia, portanto, não elimina a necessidade de desenvolver jovens. Ela torna esse desenvolvimento ainda mais urgente.
O que as empresas precisam fazer
A resposta não está em impedir a automação de tarefas repetitivas. Essas tarefas podem e devem ser otimizadas. A questão é como utilizar o tempo liberado pela tecnologia para acelerar o aprendizado e ampliar a contribuição do profissional.
Em vez de manter o jovem restrito ao preenchimento de planilhas, por exemplo, a empresa pode ensiná-lo a interpretar os indicadores. Em vez de utilizá-lo apenas para consolidar informações, pode envolvê-lo na análise de causas, em reuniões de acompanhamento e na construção de planos de ação.
As posições iniciais precisam migrar da simples execução para uma combinação de execução assistida, aprendizagem, análise e participação progressiva nas decisões.
Isso exige programas estruturados de estágio, aprendizagem e trainee, acompanhamento próximo das lideranças, critérios claros de evolução, treinamentos em inteligência artificial e oportunidades reais de aplicação prática.
Também será necessário avaliar os profissionais por competências que vão além da capacidade de executar uma tarefa. Pensamento crítico, comunicação, curiosidade, julgamento, capacidade analítica, adaptabilidade e aprendizagem contínua estão entre as habilidades que ganham relevância com o avanço da tecnologia. O Fórum Econômico Mundial aponta IA e dados entre as competências técnicas de crescimento mais acelerado, acompanhadas por pensamento criativo, resiliência, flexibilidade e aprendizagem contínua.
O papel do RH nessa transformação
O RH precisa participar do redesenho das posições antes que a automação seja tratada exclusivamente como uma decisão financeira ou tecnológica.
É necessário analisar quais tarefas serão automatizadas, quais competências continuarão humanas, como o conhecimento será transmitido e de onde virão os futuros profissionais plenos, especialistas e gestores.
Também será preciso revisar descrições de cargos. Não faz sentido retirar todas as atividades básicas de uma posição e continuar classificando-a como júnior, exigindo do candidato uma experiência que ele ainda não teve oportunidade de desenvolver.
O planejamento sucessório também deverá observar a base da estrutura. Uma empresa pode ter bons profissionais seniores hoje e, ainda assim, estar construindo uma escassez futura caso deixe de formar pessoas nos níveis iniciais.
A inteligência artificial não deveria encerrar carreiras antes que elas comecem
A IA pode retirar dos profissionais tarefas cansativas, repetitivas e de baixo valor. Esse é um avanço importante. Entretanto, as empresas precisam evitar que, junto com essas tarefas, desapareçam também as oportunidades de aprendizagem.
O desafio não é preservar trabalhos obsoletos. É redesenhar a entrada no mercado para que os profissionais aprendam a trabalhar com a tecnologia, e não sejam excluídos por ela.
Organizações que utilizarem a IA apenas para reduzir posições iniciais poderão ganhar eficiência imediata, mas correrão o risco de perder sua capacidade futura de formar talentos.
As empresas que transformarem a tecnologia em instrumento de desenvolvimento poderão construir profissionais mais analíticos, preparados e produtivos desde o início da carreira.
A pergunta estratégica, portanto, não é somente quais tarefas a inteligência artificial pode executar, mas como serão formados os profissionais que precisarão tomar decisões quando essas tarefas já estiverem automatizadas.
Sobre a autora
Dayane Santos é Headhunter e Business Partner da Tigerlog Consultoria, atuando em recrutamento estratégico, análise de mercado, gestão de talentos e apoio às empresas em decisões relacionadas às pessoas e ao negócio.
Este artigo foi elaborado com base em pesquisas e estudos publicados por instituições nacionais e internacionais sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, especialmente nas oportunidades destinadas aos profissionais em início de carreira.
Entre as fontes consultadas estão a Organização Internacional do Trabalho — OIT, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — OCDE e o Fórum Econômico Mundial.