• By Dayane - Headhunter como criadora
  • julho 12, 2026
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A IA pode eliminar a porta de entrada do mercado de trabalho?

A discussão não deve se limitar à pergunta sobre quantos empregos serão substituídos pela inteligência artificial. Um risco menos evidente, mas potencialmente mais estrutural, está na redução das oportunidades destinadas a profissionais em início de carreira.

Durante décadas, atividades como elaboração de relatórios simples, atualização de planilhas, conferência de informações, atendimento inicial, produção de textos básicos, lançamento de dados e acompanhamento de processos funcionaram como uma espécie de escola prática. Embora fossem tarefas operacionais, permitiam que jovens profissionais conhecessem o negócio, desenvolvessem repertório e se preparassem para assumir responsabilidades mais complexas.

Agora, muitas dessas atividades podem ser automatizadas ou realizadas com apoio de inteligência artificial. O problema não está apenas na eliminação da tarefa repetitiva. Está na possibilidade de as empresas eliminarem também a posição pela qual o profissional começaria a construir sua experiência.

A Organização Internacional do Trabalho estima que aproximadamente um em cada quatro empregos no mundo apresenta algum nível de exposição à inteligência artificial generativa. A própria organização pondera, porém, que o resultado mais provável é a transformação das ocupações, e não a substituição integral dos trabalhadores. Funções administrativas e de suporte estão entre as mais expostas.

Essa transformação tende a atingir diretamente cargos de assistente, auxiliar, trainee, estagiário e analista júnior, porque parte relevante de suas atribuições está relacionada à organização de informações, elaboração de documentos, pesquisas iniciais e execução de rotinas padronizadas.

A OCDE também alerta que os jovens podem enfrentar uma concorrência crescente com a IA pelas vagas de entrada. Isso ocorre em um contexto no qual muitos já encontram dificuldades para ingressar no mercado por falta de experiência, criando um paradoxo: as empresas exigem experiência, mas reduzem justamente as oportunidades que permitiriam adquiri-la.

O desaparecimento do primeiro degrau

Toda organização precisa formar profissionais capazes de ocupar posições técnicas, estratégicas e de liderança no futuro. Entretanto, os profissionais mais experientes não surgem prontos no mercado. Eles são desenvolvidos a partir de sucessivas experiências, exposição a problemas, acompanhamento de gestores, erros, correções e aumento gradual de responsabilidade.

Quando a empresa automatiza posições iniciais sem construir uma nova trilha de aprendizagem, pode gerar uma ruptura no seu próprio pipeline de talentos.

No curto prazo, a redução de funções juniores pode parecer eficiente. A empresa diminui custos, acelera entregas e consegue produzir mais com equipes menores. No médio e no longo prazo, porém, pode enfrentar escassez de profissionais com conhecimento prático suficiente para assumir posições plenas, seniores e de liderança.

Esse é o ponto central: a inteligência artificial pode não eliminar apenas determinados empregos, mas comprometer o processo pelo qual os trabalhadores acumulam experiência.

O impacto não será igual para todos

A exposição à IA não significa automaticamente demissão. Em muitas atividades, a tecnologia funciona como instrumento de apoio, elevando produtividade e qualidade. O risco aumenta quando a organização utiliza a automação apenas como mecanismo de redução de quadro, sem redesenhar funções ou investir em qualificação.

Pesquisas recentes indicam que trabalhadores mais qualificados e com maior capacidade de adaptação tendem a obter benefícios mais rapidamente, enquanto profissionais com menor repertório técnico ou pouca autonomia podem enfrentar maiores dificuldades.

Isso pode ampliar uma desigualdade já existente. Profissionais experientes utilizam a IA para acelerar análises, consolidar conhecimentos e melhorar decisões. Já os jovens, que ainda precisam desenvolver esses conhecimentos, podem ser cobrados para entregar resultados mais avançados sem terem percorrido as etapas necessárias de aprendizagem.

Em outras palavras, a IA pode aumentar a produtividade de quem já possui repertório, mas não necessariamente criar sozinha o repertório de quem está começando.

Uma vaga de entrada não pode exigir um profissional pronto

Outra consequência possível é a elevação artificial das exigências para posições juniores. Se a tecnologia passa a executar as tarefas mais básicas, as empresas podem começar a esperar que o profissional recém-formado já saiba interpretar dados, apresentar soluções, utilizar ferramentas de IA, compreender o negócio e tomar decisões.

A vaga continua sendo divulgada como júnior, mas seu escopo passa a se aproximar de uma posição plena.

Esse movimento pode tornar o primeiro emprego ainda mais inacessível. Dados citados pela OCDE mostram que mais de 90% dos empregadores avaliados em determinado levantamento exigiam experiência anterior até mesmo para posições classificadas como de entrada.

A tecnologia, portanto, não elimina a necessidade de desenvolver jovens. Ela torna esse desenvolvimento ainda mais urgente.

O que as empresas precisam fazer

A resposta não está em impedir a automação de tarefas repetitivas. Essas tarefas podem e devem ser otimizadas. A questão é como utilizar o tempo liberado pela tecnologia para acelerar o aprendizado e ampliar a contribuição do profissional.

Em vez de manter o jovem restrito ao preenchimento de planilhas, por exemplo, a empresa pode ensiná-lo a interpretar os indicadores. Em vez de utilizá-lo apenas para consolidar informações, pode envolvê-lo na análise de causas, em reuniões de acompanhamento e na construção de planos de ação.

As posições iniciais precisam migrar da simples execução para uma combinação de execução assistida, aprendizagem, análise e participação progressiva nas decisões.

Isso exige programas estruturados de estágio, aprendizagem e trainee, acompanhamento próximo das lideranças, critérios claros de evolução, treinamentos em inteligência artificial e oportunidades reais de aplicação prática.

Também será necessário avaliar os profissionais por competências que vão além da capacidade de executar uma tarefa. Pensamento crítico, comunicação, curiosidade, julgamento, capacidade analítica, adaptabilidade e aprendizagem contínua estão entre as habilidades que ganham relevância com o avanço da tecnologia. O Fórum Econômico Mundial aponta IA e dados entre as competências técnicas de crescimento mais acelerado, acompanhadas por pensamento criativo, resiliência, flexibilidade e aprendizagem contínua.

O papel do RH nessa transformação

O RH precisa participar do redesenho das posições antes que a automação seja tratada exclusivamente como uma decisão financeira ou tecnológica.

É necessário analisar quais tarefas serão automatizadas, quais competências continuarão humanas, como o conhecimento será transmitido e de onde virão os futuros profissionais plenos, especialistas e gestores.

Também será preciso revisar descrições de cargos. Não faz sentido retirar todas as atividades básicas de uma posição e continuar classificando-a como júnior, exigindo do candidato uma experiência que ele ainda não teve oportunidade de desenvolver.

O planejamento sucessório também deverá observar a base da estrutura. Uma empresa pode ter bons profissionais seniores hoje e, ainda assim, estar construindo uma escassez futura caso deixe de formar pessoas nos níveis iniciais.

A inteligência artificial não deveria encerrar carreiras antes que elas comecem

A IA pode retirar dos profissionais tarefas cansativas, repetitivas e de baixo valor. Esse é um avanço importante. Entretanto, as empresas precisam evitar que, junto com essas tarefas, desapareçam também as oportunidades de aprendizagem.

O desafio não é preservar trabalhos obsoletos. É redesenhar a entrada no mercado para que os profissionais aprendam a trabalhar com a tecnologia, e não sejam excluídos por ela.

Organizações que utilizarem a IA apenas para reduzir posições iniciais poderão ganhar eficiência imediata, mas correrão o risco de perder sua capacidade futura de formar talentos.

As empresas que transformarem a tecnologia em instrumento de desenvolvimento poderão construir profissionais mais analíticos, preparados e produtivos desde o início da carreira.

A pergunta estratégica, portanto, não é somente quais tarefas a inteligência artificial pode executar, mas como serão formados os profissionais que precisarão tomar decisões quando essas tarefas já estiverem automatizadas.

 

Sobre a autora

Dayane Santos é Headhunter e Business Partner da Tigerlog Consultoria, atuando em recrutamento estratégico, análise de mercado, gestão de talentos e apoio às empresas em decisões relacionadas às pessoas e ao negócio.

Este artigo foi elaborado com base em pesquisas e estudos publicados por instituições nacionais e internacionais sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, especialmente nas oportunidades destinadas aos profissionais em início de carreira.

Entre as fontes consultadas estão a Organização Internacional do Trabalho — OIT, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — OCDE e o Fórum Econômico Mundial.

Dayane - Headhunter como criadora

Dayane Santos é Sócia da Tigerlog Consultoria, responsável pela condução de projetos estratégicos de Hunting, Executive Search e Consultoria em Gestão de Pessoas. Atua como Business Partner, apoiando empresas na tomada de decisões relacionadas à atração, seleção, desenvolvimento e retenção de talentos, sempre alinhadas à estratégia e aos objetivos do negócio.

Especialista no segmento de Logística, atua na identificação e contratação de profissionais para posições de Analistas a Executivos, além de desenvolver projetos de estruturação de RH, People Analytics, indicadores de desempenho e gestão estratégica de pessoas.

Sua atuação é sustentada por um acompanhamento contínuo do mercado de trabalho, realizando pesquisas de mercado, mapeamento de profissionais, análise de tendências, movimentações executivas e comportamento do setor logístico. Essa inteligência de mercado permite compreender a evolução das operações, identificar novas competências demandadas pelas empresas e apoiar decisões de contratação com maior assertividade.

Com mais de sete anos de experiência, é graduada em Administração e Gestão de Recursos Humanos, possui pós-graduação em Business Partner – Gestão Estratégica de Pessoas e certificações em Inteligência Artificial aplicada ao RH, People Analytics, Coaching e Lean Six Sigma.

Além da atuação consultiva, é autora de mais de 100 artigos voltados à Logística e Gestão de Pessoas, contribuindo para a disseminação de conhecimento sobre liderança, mercado de trabalho, recrutamento estratégico e desenvolvimento organizacional. Também foi entrevistada pela Revista Mundo Logística, compartilhando sua visão sobre a transformação do perfil dos profissionais e os desafios da atração de talentos no setor.

Acredita que as melhores decisões em gestão de pessoas são construídas pela combinação entre inteligência de mercado, estratégia e profundo conhecimento das operações, conectando talentos aos objetivos de crescimento e competitividade das organizações.

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